sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

PRESENTE DE NATAL


     A família do meu avô, como quase todas as demais de antigamente, era bastante numerosa. Mas seus filhos espalharam-se pelo mundo, o que acabou por transformar seu enorme casario no centro de Fortaleza, no meu castelo particular; a mim, que, àquele tempo, residia na mesma cidade e frequentava muito a quase sempre esvaziada vivenda.
     Mas, nas férias, a coisa mudava completamente de figura. Os distantes se aproximavam para as festas e a mansarda se enchia de crianças. E, com elas, balbúrdia, algazarra, animação. Tempo mágico, de experimentações e danações, descobrimentos... pura felicidade.
    Próximo ao Natal, a característica árvore se enchia, sob a sua copa, de presentes, de variados tamanhos, formas e cores. 
      E, nós, ávidos por eles, examinávamos-os um a um.
     Aquelas foram as nossas primeiras experimentações de metodologia científica: apalpávamos aquelas caixas, avaliando seus pesos e tamanhos; as balançávamos, tentando adivinhar seus conteúdos e formulávamos hipóteses, emitidas com seriedade incomum por aquele conselho de “especialistas experimentados”. E, em consenso, chegávamos às nossas conclusões, quase sempre depois confirmadas. Um universo descortinado pela intuição.
     Contudo, por mais que tivéssemos convicções à respeito do que dentro deles existisse, não tínhamos como saber a quem se destinavam. A surpresa era, então, a alma do negócio. A nossa expectativa tornava-se a arma dos adultos, letal e sanguinolenta, arrasando pequenos corações aflitos, até o momento crucial de se desfazerem todos aqueles segredos.
     No Natal de 65, entretanto, algo de incomum veio se acrescentar ao mundo dos invólucros misteriosos. Entre os presentes havia um Posto de Gasolina. De proporções um pouco mais avantajadas, não foi embalado por aqueles papéis coloridos que serviam de cortina às nossas curiosidades e, sem eles, mostrava-se por inteiro, despertando a cobiça de vários pares de olhos ambiciosos e faiscantes. 
     A vontade velada, todavia, não suscitou disputas desnecessárias: a propriedade daquele objeto de desejo comum estava sacramentada e somente o destino poderia apontar quem seria o beneficiado.
     E, para o meu estupefato espanto, a mim, numa dessas inesquecíveis alegrias pueris, me coube a ambicionada prenda.
     Me recordo brincando com ele, depois, muitas e muitas vezes, no jardim da nossa casa na Praia de Iracema: abastecendo veículos, fazendo manobras nas suas rampas, determinando o seu bom funcionamento.
     Como poderia imaginar que, por uma destas voltas que a vida dá, tornaria a proceder de igual maneira na vida real e hoje vivenciar as mesmíssimas situações?
     Não sei responder. Perguntem ao Papai Noel!

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Charles Bronson, mas pode chamar de Toinho

     Certo dia, em meados do século VI a.C., um sábio grego apresentou-se na corte de Creso, considerado o homem mais rico do mundo. O déspota lídio recebeu o visitante com hospitalidade e até mostrou-lhe o tesouro real.
     “Agora, diga-me”, perguntou o monarca, “você que já viajou bastante e viu muitas coisas. Quem é o homem mais afortunado que já encontrou?”
     “Ora, Telo de Atenas”, respondeu o visitante.
     Creso ficou atônito. Quem era esse Telo para ser mais afortunado que o próprio Creso? Então o sábio explicou. Telo fora um cidadão livre de Atenas, uma bem governada cidade-estado grega. Os filhos dele foram bravos e virtuosos e lhe haviam dado muitos netos, todos excelentes. Por fim, após uma vida longa e produtiva, Telo morrera heroicamente, lutando por seus concidadãos atenienses, que o recordavam com respeito e gratidão. O que mais poderia um homem querer?
     O que, realmente? O sábio viajante, que segundo a tradição era o grande legislador ateniense Sólon, sem dúvida sentia-se particularmente ligado a seus compatriotas. Sua mensagem, contudo, tinha a intenção de ser universal. A honra e a virtude eram mais valiosas do que a riqueza material: melhor ser um cidadão comum grego do que ser o mais poderoso monarca. Pois a riqueza e o poder podem desaparecer da noite para o dia – como Creso logo acabaria descobrindo.

(O Desabrochar Helênico, do livro A Elevação do Espírito)


     Enganou-se quem, por vê-lo trajando aquelas indefectíveis batas de brim, de gosto bastante duvidoso ou de maneira aparentemente retraída, abster-se de pronunciamentos sobre as conversas que testemunhava, não teve a sensibilidade de se aperceber do óbvio: o valor de um homem está na sua capacidade de realizar aquilo que se propõe, com dignidade.
     Solícito, duma simplicidade que extrapolava falsos valores mundanos. Muito condizente com o ambiente que representou por toda a vida. A simplicidade, o grau máximo da sofisticação, costuma passar ao largo das mentes tacanhas.
     Discreto o suficiente para dissimular nossas enxeridas indagações a respeito de alguns eventuais outros clientes. Confiável, seria o termo mais adequado. Duvido que, igualmente, divulgasse aos outros, os nossos tolos devaneios. Que ele bem conhecia: por vezes, tornava-se nosso confidente.
     Dedicado ao seu labor, foi o único garçom que conheci que nunca fez biquinhos de muxoxo aos nossos pedidos de mais uma saideira (que ele bem sabia não a ser a última). Franzino, transportava aquelas enormes pilhas de mesas e cadeiras, sem reclamar. E, mesmo depauperado, tinha disposição para te atender, na areia escaldante daquela praia linda ou fora dela, mas com alegria, porque atendimento sem boa vontade é obrigação. 
      Quem mais, em três décadas, conviveria contigo sorridentemente, pelo simples fato de ser bom?
     Acima de tudo, amigo. Desses que se comprazem com a tua presença, cujos olhos se iluminam quando te veem. Encontrá-lo era garantida alegria, prenúncio de ótimos momentos, ali, ao lado dos amigos, entre os quais, ele era mais um.
     Adoraria acreditar num improvável reencontro. Guardo-te comigo, da forma que sempre fostes: completo. Uma pessoa rara.
     Resta-me agradecer-te por tudo que fizestes a mim e aos meus, por pura afeição.
     Fica na paz, Bonitão!

segunda-feira, 30 de maio de 2016

A 25ª hora...


Meu amor, meu cheiro, meu dengo.
Alegria, alegria... Meu encanto!
Minha flor em cada canto.
Madeixas que tisnem à luz do Sol,
Que rutilam, luzindo com a Lua.
Suave pluma que ao vento flutua.
Eu te desejo o melhor dos mundos possíveis.
Que sejas simplesmente e tão somente como és
Sensível, intuitiva, prática (como pode?)... Sem viés.
Sois a dádiva que ornou a minha vida!
Feliz aniversário!


quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

89's


Fluída, de baixa viscosidade, a vida tende a escorrer entre os dedos, por mais que comprimamos as mãos, em nossas incontáveis e infrutíferas tentativas de contê-la.
Volátil, o tempo insiste em “evaporar-nos”. Delicada, a fragrância da existência esparge seu aroma único, tanto mais agradável quanto maior a admiração por aquele que o exala.
Poderia tecer infindáveis loas às tuas várias qualidades. Ou desfiar teus inúmeros enganos.
Contudo, apenas observo...
Reconheço-me nos teus erros. Vejo-te humano, como tanto te desagradas. “Aliud vitil est” – cada um tem seu defeito (Terêncio). Por que serias diferente?
Mas, comprazo-me com teus êxitos. E eles são tantos. Tento sorver o que de melhor possuis. Felicito-me na tua perene alegria de viver, de debochar da vida com escrutínio incomum.

Que a Natureza, que sempre te foi pródiga, continue ofertando-te suas benesses.

Fazer 89 anos pode ser doce, mas não é mole não...
Te amo, velho! Feliz aniversário!

domingo, 11 de maio de 2014

LEOA


Quem bem não te conhece, mal imaginaria
Do que realmente serias capaz por tuas crias
E que desta perene placidez e solicitude contente
Possas assomar-se, de repente, tal temível fera
Para, espíritos amainados, em consequentes eras
Retornares ao teu natural estado de amor, em forma de gente...

Clara & Lina, sortudas criaturas, somente por tua causa, mesmo.


terça-feira, 17 de dezembro de 2013

SAUDADE

Voo de pássaros, registrados devido longa exposição.

Hoje eu vi uma andorinha, embriagar-se de luz!
Voar e voar à doidinha; e por um momento, supus
Que as pontas das suas asas, eram penas de escrever
E o céu azul sobre as casas era o papel, pus-me a ler!

Oh! Senhor, eu não me engano
No seu voar incoerente, eu soletrei de repente, uma palavra:


Saudade!

(lamentavelmente, desconheço a autoria)



Do nada, ela chega e domina.
Comprime-me a traqueia
Aperta-me o peito
E deixa tudo, na casa do sem jeito

Consola-me uma lágrima
Pois que amar, não é defeito! 

quarta-feira, 31 de julho de 2013

OH, PEDAÇO DE MIM!




Quando eras ainda pequerrucha e por vezes, doentinha e os teus estados febris inspiravam cuidados, aproximava-me de ti, aflito: os teus choros sempre foram as minhas piores músicas! Impotente, agarrava-te e encostando-me à tua pele, à tua cabeça, orava silenciosamente, rogando a tua cura, suplicando para que as tuas mazelas, as tuas dores, fossem a mim transferidas, em tentativas desesperadas de te proteger de qualquer mal.
Passados todos esses anos, vejo-te, no auge destas minhas estranhas dores sobre macas hospitalares e deste medo incontrolável de me ver submetido a inadiáveis intervenções cirúrgicas, acalentando docemente o meu espírito, afagando meus cabelos, encorajando-me com palavras tão precisas e realísticas.
Débil, naquele momento, eu realmente precisava daquele sopro, daquele incentivo, daquele alento. O incrível não foi consegui-los de ti: assim eu já o esperava. Mais que tudo, foi descobrir uma fonte de respiração e de força naquele pedaço de mim; foi a sensação de, por algum momento da minha vida, ter conseguido trilhar o caminho certo.

Meu abdómen ainda dói; e deve doer ainda alguns dias. Meu coração, não! Este apenas regozija-se à minha alma, de júbilo, por ter-te!

quinta-feira, 26 de julho de 2012

MAIOR TURTLE



    


  É de notório saber que características físicas são transmitidas através do código genético por gerações, subseqüentemente. Mais recentemente, inclusive, especialistas chegaram a afirmar que mesmo os padrões comportamentais individuais sofrem, ou podem sofrer, influências de hereditariedade, que são conduzidas embutidas nos compostos orgânicos responsáveis pela expedição dos modelos sucedidos, os genes.  
     








Entrementes, a moderna psicologia e até os segmentos voltados aos estudos da espiritualidade são unânimes em afirmar que a alma humana é única e singular e tal como uma cédula de identidade, pessoal e intransferível.

     


 Analisando estas duas assertivas de antagonismo tão acentuado e observando o cotidiano de vida da minha companheira ao longo desses tantos anos, sou levado a considerar a veracidade de ambas.








    Assim como alguns de seus irmãos, Ana Lúcia herdou o espírito bonachão de seu pai. Uma essência básica que mistura simplicidade, ingenuidade e paciência. Reconheceria a paternidade deles todos, sobretudo dela, apenas pelo andar, comedido e balanceado; extremamente fiel ao original.



 Possuidora de gestos largos, como que meticulosamente estudados, ritmados até, tudo nela exprime brandura e retrata fielmente o seu espírito tranqüilo, inclusive na fala... mansa, suave, delicada.
     






  


  Não se deve confundir, todavia, quietude ou serenidade com acomodação. Ágil no agir ou no pensar quando lhe é conveniente, sempre consciente das necessidades que suas atribulações requerem e suas imediatas providências, ainda assim, lhe é quase impossível não deixar transparecer sua marca mais particular, indelével: sua leveza inconfundível.

     

  Por tudo isto, uma amiga super querida apelidou-a, numa alusão ao seu contido vagar, de tartaruga. Mas não uma tartaruga qualquer, senão a mais representativa delas: Tartaruga Mor. A “major” dos quelônios, animais de longa existência. E de similar aparente complacência.
  




  


  Evidente que o seu sossego não lhe permitiria se incomodar com a alcunha, antes pelo contrário. Pareceu-lhe carinhoso e foi adotado intimamente, desde então.

      



  Hoje temos em casa uma singela coleção desses adoráveis bichinhos, amealhados no decorrer do tempo em viagens, comprados como souvenir ou presenteados pelos mais queridos.
   



   






   
  Normalmente o vexame não lhe afeta e parece lhe ser indiferente à maioria das suas ocasiões. A celeridade, essa sim, não aparenta ser muito sua amiga. Afinal, todos sabem que a pressa é inimiga da perfeição. 

      




  Feliz aniversário, minha aquarela deslumbrante. Que tudo de bom continue acontecendo na tua vida!












Fotos by CLARA CASTELO BRANCO MOTTA

sábado, 31 de março de 2012

VALEU, MALUCO!


              Evidentemente que não conseguiríamos escapar incólumes, para todo o sempre, aos indeterminismos que o destino imputa aos seres viventes. A máxima da dádiva da vida prevalecerá, indefectivelmente, sobre a temporalidade humana: tudo que na face do planeta habita e vive, tem início, meio e fim.
     Vivenciamos, por um intervalo de tempo de uns tantos anos, uma era de ouro. Bela e feliz! Éramos maduros o suficiente para distinguir a quem nossos corações poderiam pertencer e tínhamos a sensibilidade necessária para perceber a bilateralidade que nossos sentimentos provocavam; e as simbioses quase perfeitas que daí se originavam.
     Imaginávamos, do alto das nossas ingenuidades, uma irrealidade de alegria perene e, despreocupadamente, aproveitávamos para dar vazão às nossas amizades sinceras, tão descompromissadas e genuínas, quanto alvissareiras e, sobretudo, sobranceiras.
     No fundo sabíamos que um dia, inexoravelmente, o cristal se partiria. Apenas não poderíamos supor que  fosse tão dolorido e que provocasse um vácuo tão acentuado nas nossas existências.
     Incapazes que compreendermos o real significado dos acontecimentos, ficamos a nos perguntar a razão deles. Quem determina quando, onde, como e por quê? Não há respostas plausíveis e nada do que se diga mudará a cruenta situação.  Ainda que a morte seja inerente ao processo da vida, a irreversibilidade dela nos faz imergir num universo onde o supra-realismo impera. Surpreendidos pela avalanche da eventualidade, atingimos um elevado grau de entorpecimento e tudo que conseguimos identificar dentro de nós é a saudade.
     E é em nome desta saudade que me dirijo a ti, meu maravilhoso, equânime e magnânimo amigo, como se ainda tivessem os teus ouvidos, o dom de me escutar. Como se ainda pudéssemos sonhar os mesmos sonhos. Como se nossos planos ainda lograssem se realizar. Como se esta tua tão prematura partida não conseguisse modificar o que sempre nos foi caro e comum.
     Elogiar-te é chover no molhado. Todos que contigo conviveram conhecem teus inúmeros predicados. És uma boa alma e isto é, definitivamente, imperecível. Fica o teu exemplo e através dele conseguistes te transformar no teu próprio legado. O que guardo de ti é aquilo que sempre fostes: um grande companheiro, sobremaneira, como raríssimos conseguem ser. Tenho um imenso orgulho de ter tido a oportunidade de usufruir do teu carinho. Dizem que os verdadeiros amigos contam-se nos dedos de uma só mão; pura verdade, vez que eles são poucos, necessários, essenciais.Agora sem um deles, não mais poderei viver sem me sentir como se tivessem amputado uma parte de mim.
     Os cantos da Redonda continuarão a ecoar pelos espaços opacos do tempo. O vento leste marinho permanecerá com suas rajadas frias, sobre o ambiente que tanto amavas.  A despeito da enorme tristeza que ora nos aflige, a vida continua. É a suprema lei natural a nos mostrar o quanto ela pode se revelar incognoscível.
     Como você mesmo diria:
     Foi sensacional, doido!
     Valeu, cara!
     Valeu, maluco!

domingo, 1 de janeiro de 2012

LEMBRETE



Durante certo tempo, nos idos da década de setenta, o programa Fantástico, O Show da Vida encerrava suas apresentações dominicais com um quadro do genial Chico Anísio, que transvertido em um dos seus personagens, passava uma mensagem semanal para a reflexão do grande público e que, inopinadamente, nada possuía de comicidade.
     O personagem era um profeta, a que os outros figurantes chamavam de “mestre” e tinha a aparência de um patriarca bíblico – um hollywoodiano Charlton Heston pós-moderno, uma espécie de Moisés tupiniquim – com aquela aparência grave e respeitável que convém às figuras proclamadoras das pretensas verdades e que o maior ator brasileiro de todos os tempos encarnava com maestria absoluta.
     Em um desses esquetes, duas pessoas indagavam ao grande sábio resposta às suas apreensões, idênticas, mas originadas por situações antagônicas.
     A primeira buscava saber: “- Mestre, obrigatoriamente irei me transferir de cidade e gostaria de saber se essa alteração na minha vida será boa para mim!”.  O ancião questionava: “- Como é sua vida agora?”. A pronta resposta de que sua condição era estável, com bom convívio no trabalho e nos seus relacionamentos, que se sentia feliz e que a modificação da própria realidade se devia a compromissos profissionais, dava margem à réplica sucinta do prudente homem: “– Vá com confiança, você se dará bem em qualquer lugar!”.
     A segunda criatura, atormentada pela mesmíssima controvérsia a respeito de uma transformação tão radical, tornava claro que seu anseio por nova moradia devia-se exclusivamente à crítica situação que vivenciava, com dificuldades de toda ordem, financeira, familiar e de autoconfiança e que tinha esperança que em um novo canto se processaria as modificações tão desejadas e necessárias. A enfática sentença do guru era por demais irrefutável para não ser levada em consideração: “- Continue onde está, procure antes regularizar sua condição e encontrar a paz aqui mesmo!”
     Definitivamente, a felicidade e bem-estar não são questões geográficas.

Não importa o que acontece. O que verdadeiramente tem relevância é a tua opinião sobre o que acontece!

     Neste final de ano e início de um novo ciclo, tenho acompanhado os comentários dos meus amigos nas redes sociais quanto às expectativas promissoras que as esperanças, sempre renovadas, fazem florescer dentro dos nossos espíritos. E também sobre os malogros e reveses que o destino, rotineiramente, imputa a todos, indistintamente e em todos os aspectos, ao longo de qualquer intervalo.
     Desejos de bonança e prosperidade, efusivos e em quantidades condizentes com a estação, se misturam a impropérios e protestos por situações pouco propícias vivenciadas e creditadas ao acaso, como se um ou outro tivessem relação direta com a mudança do calendário.
     Assim, vejo um “Tudo diferente em 2012!!! Só rindo de mim mesmo e muito...” se misturar a um “Feliz Ano Novo queridos amigos... amo vcs.............. curtindo Canoa Quebrada tudo de bom”. Um “FELIZ FUTURO NOVO A TODOS...” ou “UM 2012 DUCA PARA TODOS NÓS!!!!” publicado ao mesmo tempo de um “Tchau... 2011 leve junto todas vibrações negativas” ou um “Os últimos momentos de um ano bosta tinham que ser de frente para o mar ... rsrs”, apenas evidenciam as diferentes situações que diferentes criaturas experimentaram. Foi bom ou ótimo para alguns. Para outros nem tanto. É natural. Sempre foi assim e vai continuar sendo.
     Não pude deixar de me comprazer com os mais chegados que experimentam agora doces sensações, e as exponenciam; tampouco de me preocupar com os que tentam, com suas inflamações, lembrar que o pessimismo também habita o mundo. Entretanto, quando li minha filha postar “Comendo um churrasquinho gaúcho delicioso feito pelo love Dalmo Gomes. Acaba nãaaao 2011”, me ocorreu que a felicidade existe e tem de ser disseminada. Sofrer é tolice. Deliberadamente, chega a ser irracional.
     A vida foi feita para ser vivida e saber fazê-lo é uma arte.
     Vamos viver enquanto podemos.

sábado, 17 de dezembro de 2011

REALLY?

Do pensamento do JC, o óbvio ululante mais romantizado do planeta e meu personal gurú, às margens do Lago dos Caramujos.







Do ambiente hostil
O pássaro pode sair voando.
A árvore, em ambiente acolhedor,
Pode ficar integrada.
Já a gente
Quer sair do lugar nem que seja para se mostrar.
Como aqui confesso. Saindo da rede.

                 (Júlio César Montenegro Bastos)

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

DIANTE DE MIM

DIANTE DE MIM,
TENDO EU MESMO POR TESTEMUNHA
E SOB PENA DE PERDER O RESPEITO POR MINHA PRÓPRIA PALAVRA,
EU ME COMPROMETO A BUSCAR E DEFENDER QUALIDADE DE VIDA
EM TUDO QUE EU FAÇO E EM TODOS OS LUGARES ONDE EU ESTIVER.
E ME COMPROMETO A ESTAR PRESENTE AQUI E AGORA
A DESPEITO DO PRAZER OU DA DOR QUE ESTE MOMENTO ME TRAZ
FAZENDO A PARTE QUE ME CABE
DO MELHOR MODO QUE EU SEI,
SEM ME QUEIXAR DO MUNDO, NEM CULPAR OS OUTROS
POR MEUS ERROS E FRACASSOS,
MAS ANTES ME ACEITANDO IMPERFEITO, LIMITADO E HUMANO.
E MESMO QUE TUDO RECOMENDE O CONTRÁRIO,
EU ME COMPROMETO A AMAR, CONFIAR E TER ESPERANÇA
SEM QUAISQUER LIMITES OU CONDIÇÕES.
E, EMBORA EU SÓ POSSA FAZER PEQUENO,
EU ME COMPROMETO A PENSAR GRANDE
E A PREPARAR-ME COM DISCIPLINA E CORAGEM
PARA OS IDEAIS QUE AINDA ESPERO E VOU ALCANÇAR,
SABENDO QUE TUDO COMEÇA SIMPLES E SINGELO.
DE CORPO, CABEÇA E CORAÇÃO,
EU ME COMPROMETO CRESCER MUITO E SEMPRE,
DE TODOS OS MODOS POSSÍVEIS,
DE TODOS OS JEITOS SONHADOS.

(GERALDO EUSTÁQUIO)

domingo, 20 de novembro de 2011

PRETO NO BRANCO

     
     Eu havia recém completado onze anos, quando os americanos, em 20 de julho, pisaram pela primeira vez na Lua, naquela que foi considerada a maior aventura do homem. O ano era 1969 e menos de um mês depois acontecia Woodstock, o famoso festival que exponenciou a contracultura e popularizou o movimento hippie e a sua máxima de “paz e amor”, refrão daquela geração e das proximamente subseqüentes.
     Os tempos eram de mudanças drásticas e repentinas. Em outubro daquele semestre, Médici, o chefe do SNI à época do AI-5, tomava posse como presidente do Brasil, para realizar o governo mais repressivo e obscuro da história do país. E em novembro, Pelé marcava seu milésimo gol, bradando, durante a comemoração e em tom de alerta, a necessidade de se direcionar cuidados à infância abandonada da nação; profecia não ponderada pelas autoridades e de conseqüências nefastas tão conhecidas por nós.
     E em dezembro, como de costume, eu desembarcava no casarão dos meus avôs, para mais uma das inesquecíveis férias da série “ser feliz é tudo que se quer”.
     O sobrado dos velhos ficava no centro de Fortaleza, era estreito e comprido, com ambientes espaçosos, um quintal de muitas plantas, que se integrava prazerosamente com a parte aberta posterior do imóvel e, nos altos, voltado para a rua, um quarto enorme com sacada, local onde invariavelmente me instalava em redes embaladas por sonhos e anseios primaveris; e também por resenhas musicais, sociais ou esportivas irradiadas pelo principal meio de comunicação de uma era ainda existente, o rádio.
     Na noite da sexta-feira que antecedeu o Natal, confortavelmente estendido na minha “philomeno”, balançando-me ao ranger dos armadores, acompanhava atentamente no meu aparelhinho de pilhas, uma das partidas finais do campeonato norte-nordeste de futebol, disputado entre as equipes do Ceará, campeão da região nordeste - e pela qual já nutria uma inexplicável empatia - e a do Remo, clube do Pará e campeão da região norte.
     O escrete alencarino havia sido batido no primeiro jogo da série, em Belém, pelo placar de 2x1 e se via na obrigação de devolver o resultado e forçar uma terceira contenda. Caso contrário, veria o Leão Azul levantar a taça mais cobiçada do futebol fora do eixo SP/RJ, as potências do esporte daquele tempo.
     Foram momentos tensos. O time do Ceará perdia de 2x0 até a metade do segundo tempo, mas o destino iria modificar, com uma pilheriedade incomum, a história do clube e, porque não dizer, a minha também.    
      Não sei se por falta de artifícios visuais, mas a impressão que eu tenho é que os narradores de antigamente traduziam mais facilmente em palavras o que presenciavam, reportando com mais vivacidade o que os seus olhos viam. O fato é que fui completamente absorvido pelo magistral “crooner” e transportado, pelo esfuziante entusiasmo do radialista, para dentro da cancha desportiva.
     Parte da torcida já abandonava o estádio quando, aos 22 minutos Magela descontou, reacendendo a chama e a esperança do que já parecia perdido. Mais dez minutos, Zezinho empatou a partida e colocou fogo no velho PV.  E no finalzinho, aos 43, Gildo, o maior goleador da trajetória do “Vovô” em todos os tempos, numa cabeçada certeira, tornou realidade o que apenas vinte minutos antes parecia impossível. A primeira virada a gente nunca esquece!
     Já existia profissionalismo no futebol cearense de então, mas havia também muito amor às agremiações e isso era notório, evidente. Gildo comemorou tanto o seu improvável feito que desmaiou em campo de tanta emoção. A mesmíssima emoção que o tresloucado locutor transmitiu e que fez com que eu não conseguisse dormir por algumas horas.
     Iria acontecer uma decisiva peleja. E eu não poderia deixar de estar lá e testemunhá-la.
    Assim, no domingo seguinte à tarde, saí de casa decidido – bons tempos aqueles em que garotos não corriam perigo em deslocamentos urbanos solitários – e caminhei ansiosamente pela longa Senador Pompeu até a Gentilândia.  Adentrei a praça esportiva embasbacado: era tudo muito grande, ou eu era muito pequeno... ou os dois. Arquibancadas apinhadas de torcedores, um burburinho inquietante, a apreensão pela batalha. O show estava para começar.
     Mesmo vivenciando uma situação inusitada e no meio daquela algazarra toda, me senti tranqüilo. Ainda não existia nos estádios espaços delimitadores para facções distintas, nem torcidas uniformizadas ou organizadas. O espaço era democrático, camisas azuis e alvinegras dividiam os lugares harmoniosamente. Lembro-me de ter visto, inacreditavelmente aos dias atuais, várias bandeiras adversárias atadas com nós nas extremidades, em gestos elegantes de aceitação e amizade, já perdidos no tempo, lamentavelmente. Haveria uma rixa ali, mas ela se restringiria às linhas demarcatórias do gramado.
     E foi o que aconteceu. Eu já gostava de futebol desde sempre e não desperdiçava uma única oportunidade sequer de praticá-lo, mas nunca antes tivera a oportunidade de admirar toda a plasticidade do maravilhoso esporte de maneira tão patente. Encostado ao alambrado, sentidos aflorados, pude ouvir o som seco da bola sendo atingida com violência, perceber o esforço dos jogadores, bufando vigorosamente pela disputa da pelota; escutar a troca de palavreado, numa modalidade também exercida com o gogó, e suas subjetividades decorrentes, como a catimba e a malandragem, existentes e manifestas ao contato auditivo.
     Para um batismo, o resultado não poderia ser mais gratificante. Com gols de Gildo, Magela e Gojoba, o Ceará marcou 3x0 e se tornou campeão do Norte e Nordeste do Brasil de 1969. E eu me tornei, inexorável e irremediavelmente, torcedor do mais querido.
     Ao trinar derradeiro do árbitro Romualdo Arpi Filho, as demonstrações de alegria incontida, gritos, muito choro e extravasada emoção apenas confirmaram o que eu já me apercebera: eu encontrara definitivamente o meu ambiente. E desde então, amo este time como uma extensão de mim mesmo.


    

domingo, 19 de junho de 2011

Sôbre a importância de ti...


Viestes, assim como hoje se repete, num domingo resplandecente, de uma alvura poucas vezes vista, desde então. E escolhestes para nascer a hora em que o Sol consegue espargir sua potência radiante com maior intensidade.
Não havia uma única nuvem nos céus naquele dia e a luminosidade, aqui normalmente tão impactante sobre os nossos cristalinos, possuía um brilho ainda mais magnífico, tornando a ocasião cintilante, até, sobretudo para mim, que vivenciava no espírito um fulgor, por aquela sensação jamais experimentada.
Porém, não foi por nada disso, em absoluto, que te chamastes Clara.
Ainda que dificilmente conseguíssemos te dar um nome tão condizente com a tua figura quanto o que para ti escolhemos, a verdade é que até o momento mágico da tua eflorescência, tanto eu, quanto tua mãe, sequer sabíamos o sexo do bebê que estava por vir. Tínhamos preferência de nomes para ambos os gêneros, mas bastou colocar os olhos sobre ti para nos convencermos, nitidamente, que você era a Clara. Recordo-me da tua mãe, embevecida, com você, pedacinho de gente, sobre o seu peito, indagando-me: - Ela não se parece com Clara? - Claro, totalmente demais.
Tua tia Maninha, em escrito que ainda guardo, disse para Ana Lúcia que ela soube como ninguém da família escolher o nome da filha: estava certíssima.
Tornartes-te, naturalmente, com o teu encanto tão peculiar, o xodó da casa, a “Princesinha de Bagdá”, a queridinha de todos. E não era para menos: sempre possuístes esta tua aura aveludada, esta leveza de espírito que chega a transmitir aos mais próximos a paz que de ti emana.
Imaginei com a tua chegada que, de uso da minha “vasta experiência”, te apresentaria o mundo, te ensinaria a viver, te converteria numa pessoa boa.
Contudo, o destino se incumbiu de mostrar-me o quanto eu aprenderia e ainda aprendo contigo. O quanto te tornarias determinante na minha existência, o tanto que irias colorir o meu caminho; o que ainda fazes com um talento prodigioso!
És, sem dúvida, o meu divisor de águas: transmutei-me como pessoa, quando você nasceu. Você foi a mola propulsora para o crescimento interno que se processou dentro do meu ser.
Faz 28 anos agora. Hoje és esta mulher glamurosa, bela, que exala simpatia e carisma por todos os poros. Mas para mim, serás sempre a Caia, a minha neguinha que eu carregava no colo, enquanto enchia de beijos o seu cangote.
Que o mundo possa te ofertar o que existe de mais maravilhoso. Que a natureza contemple tua vida com bonança, saúde e prosperidade. Possues a alma graciosa e o coração bom: é só o que importa.
Feliz aniversário, ó detentora de vastos territórios da minha essência.
Agrada-me repetir indefinidamente: te amo com tudo que posso e ser teu pai me torna mais humano!

Beijo do pai, filha linda.

Chaval, 19/jun/2011

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Trintinha nos couros!


Metafísica
Em Platão e o mundo das essências.
Convite à Filosofia, de Marilena Chauí, Cap. 6

Numa festa, oferecida por um poeta que ganhou um prêmio por sua poesia, conversam cinco amigos e Sócrates. Um deles afirma que todos os deuses recebem hinos e poemas de louvor, mas nenhum foi feito ao melhor dos deuses, Eros, o amor.
Propõe, então, que cada um faça uma homenagem a Eros dizendo o que é o amor.
Para um deles, o amor é o mais bondoso dos deuses, porque nos leva ao sacrifício pelo ser amado, inspira-nos devotamento e o desejo de fazer o bem. Para o seguinte, é preciso distinguir dois tipos de amor: o amor sexual e grosseiro e o amor espiritual entre as almas, pois o primeiro é breve e logo acaba, enquanto o segundo é eterno. Já o terceiro afirma que os que o antecederam limitaram muito o amor, tomando-o apenas como uma relação entre duas pessoas. O amor, diz ele, é o que ordena, organiza e orienta o mundo, pois é ele que faz os semelhantes se aproximarem e os diferentes se afastarem.. O amor é uma força cósmica de ordem e harmonia do universo.
O quarto prefere retornar ao amor entre as pessoas e narra um mito. No princípio, os humanos eram de três tipos: havia o homem duplo, a mulher dupla e o homem-mulher, isto é o andrógino. Tinham um só corpo, com duas cabeças, quatro braços e quatro pernas. Como se julgavam seres completos, decidiram habitar no céu. Zeus, rei dos deuses, enfureceu-se, tomou de uma espada e os cortou pela metade.
Decaídos, separados e desesperados, os humanos teriam desaparecido se Eros não lhes tivesse dado órgãos sexuais e os ajudasse a procurar a metade perdida. Os que eram homens duplos e mulheres duplas amam os de mesmo sexo, enquanto os que eram andróginos amam a pessoa do sexo oposto. Amar é encontrar a nossa metade e o amor é esse encontro.
Finalmente, o poeta, anfitrião da festa, toma a palavra dizendo: Todos os que me precederam louvaram o amor pelo bem que faz aos humanos, mas nenhum louvou o amor por ele mesmo. É o que farei. O amor, Eros, é o mais belo, o melhor dos deuses. O mais belo, porque sempre jovem e sutil, porque penetra imperceptivelmente nas almas; o melhor, porque odeia a violência e a desfaz onde existir, inspira os artistas e poetas, trazendo a beleza ao mundo.
Resta Sócrates. “Não poderei falar”, diz ele. “Não tenho talento para fazer discursos tão belos”. Os outros, porém, não se conformam e o obrigam a falar. “Está bem”, retruca ele, “Mas falarei do meu jeito”.
Com essa pequena frase, Platão mudará todo o tom do diálogo, pois, “falar do meu jeito” significa: Não vou fazer elogios e louvores às imagens e aparências do amor, não vou emitir mais uma opinião sobre o amor, mas vou buscar a essência do amor, o ser do amor, vou investigar a idéia do amor.
Sócrates também começa com um mito. Quando a deusa Afrodite nasceu, houve uma grande festa para os deuses, mas esqueceram-se de convidar a deusa Penúria (Pênia). Miserável e faminta, Penúria esperou o final da festa, esgueirou-se pelos jardins e comeu os restos, enquanto os demais deuses dormiam. Num canto do jardim, viu Engenho Astuto (Poros) e desejou conceber um filho dele, deitando-se ao seu lado. Desse ato sexual nasceu Eros, o amor. Como sua mãe, Eros está sempre carente, faminto, miserável; como seu pai, Eros é astuto, sabe criar expedientes engenhosos para conseguir o que quer.
Qual o sentido do mito? Nele descobrimos que o amor é carência e astúcia, desejo de saciar a fome e a sede, desejo de preenchimento, desejo de completar-se e de encontrar a plenitude. Amar é desejar o amado como o que nos completa, nos sacia e satisfaz, nos dá plenitude. Amar é desejar fundir-se na plenitude do amado e ser um só com ele.
O que pode completar e dar plenitude a um ser carente? O que é em si mesmo completo e pleno, isto é, o que é perfeito. O amor é desejo de perfeição.
O que é a perfeição? A harmonia, a proporção, a integridade ou inteireza da forma. Desejamos as formas perfeitas. O que é uma forma perfeita? A forma perfeita, acabada, plena, inteiramente realizada, sem falhas, sem faltas, sem defeitos, sem necessidade de transformar-se, isto é, sem necessidade de mudar de forma. A forma perfeita é o que chamamos de beleza. O amor é o desejo de beleza.
Onde está a beleza nas coisas corporais? Nos corpos belos, cuja união engendra uma beleza: a imortalidade dos pais através dos filhos. Onde está a beleza nas coisas incorporais? Nas almas belas, cuja beleza está na perfeição de seus pensamentos e ações, isto é, na inteligência.
Que amamos quando amamos corpos belos? O que há de imperecível naquilo que, por natureza, é perecível, isto é, amamos a posteridade ou a descendência. Que amamos quando amamos almas belas? O que há de imperecível na inteligência, isto é, as idéias. O amor pelos corpos belos é uma imagem ou uma sombra do amor do imperecível, mas o amor pelas almas belas é o amor por algo que é em si mesmo e por si mesmo, imperecível e absolutamente perfeito.


Somente porque hoje fazemos trinta anos de namôro!


Little Coq, meu amor querido,


Como se pode perceber pelo interessante texto, filósofos e poetas divagam desde tempos imemoriais sobre as sutilezas, a consistência (ou a falta dela)... a natureza do amor.
Ainda que a tentativa da compreensão “dele” seja instigante, é infinitamente mais satisfatório vivê-lo, simplesmente.
Conviver com ele; esperá-lo, às vezes impacientemente, tocá-lo, olhá-lo, cheirá-lo, sentí-lo, ...enfim! Ocasionalmente, ainda que irracionalmente, afastá-lo, mesmo que por curto espaço de tempo. Mas, invariavelmente, buscá-lo como um bem imprescindível.
Naturalmente que não poderia partir de mim uma enunciação definitiva do assunto: muitos tentaram; poucos conseguiram, mesmo assim, incompletamente.
Contudo, posso falar sobre o sentimento que assola a minha alma, que inquieta e ao mesmo tempo, apascenta o meu espírito.
Do enorme bem que você me faz!
A conclusão que a autora filósofa parece chegar é que a beleza corporal não passa de uma espécie (e que espécie, hem?) de atrativo, um “feromônio” com fins de aprimoramento da espécie, ao passo que o amor pelas almas belas seja o modelo da perfeição: - Talvez isso explique a facilidade que é amar você.
Já que o amor verdadeiro é imperecível, posso afirmar categoricamente, não sem plagiar o poetinha, que tenho a absoluta convicção que te amarei, enquanto vida eu tiver.
Tu és, e creio que sabes disso, a melhor coisa que jamais poderia ter acontecido na minha existência.
E aconteceu!

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

O colar de pérolas azuis




Fulton Oursler


No dia em que a pequenina Joan Grace abriu a porta de sua loja, Peter Richard era realmente o homem mais solitário da cidade.
Ele tinha herdado de seu avô uma loja de antiguidades. Na vitrina minúscula, apinhavam-se os objetos mais heterogêneos: pulseiras, medalhões do século passado, anéis de ouro, caixinhas de prata, jades e marfins esculpidos, figurinhas de porcelana.
Naquela tarde, uma meninazinha estava diante da vitrina, a testa apoiada no vidro. Seus olhos enormes estudavam atentamente cada um daqueles tesouros, como se procurassem alguma coisa. Por fim, ela endireitou-se, com um ar satisfeito, e entrou na loja.
O interior estava ainda mais atulhado do que a frente. As prateleiras quase desabavam sob o peso das caixinhas de jóias, pistolas antigas, relógios e lâmpadas, enquanto que sobre o assoalho amontoavam-se velhos cães de chaminé, bandolins e toda espécie de velharia bem difícil de catalogar.
Peter estava atrás do balcão. Embora tivesse pouco mais de trinta anos, seus cabelos já estavam grisalhos. Contemplou a menina com um ar tristonho.
- Meu senhor – disse ela – posso olhar de perto o colar de pérolas azuis que está na vitrina?
Peter afastou a cortina e apanhou o objeto. As turquesas brilharam com vivo esplendor na palma da mão que ele estendeu com indiferença para a jovem freguesa.
- Que lindo! – disse a criança. – Faça o favor de fazer um embrulho bem bonito, sim?
Peter examinou-a com um olhar um tanto frio.
- Alguém mandou você buscar esse colar?
- Não. É para minha irmã mais velha. É ela que me cria. É o primeiro Natal que passamos juntas, depois que mamãe morreu. Quero dar-lhe um bonito presente.
- Quanto é que você tem? – perguntou Peter, sem procurar esconder sua desconfiança.
A meninazinha desatou o lenço e derramou sobre o balcão um punhado de moedas.
- Quebrei meu cofre – explicou ela, com simplicidade, e ficou esperando tranquilamente.
Peter Richard fitou-a com ar pensativo. Depois, prudentemente, pegou novamente o colar. A menina não podia ter lido a etiqueta pequena. Como dizer-lhe a verdade? O olhar azul, tão confiante, despertou subitamente nele a dor de uma ferida sempre viva.
- Espere um pouquinho! – disse ele, dando-lhe as costas.
Depois, por cima do ombro, perguntou-lhe amavelmente, absorvendo-se num trabalho aparentemente minucioso:
- Como se chama, filhinha?
- Joan Grace.
Quando Peter virou-se, tinha na mão um embrulho de papel de sêda vermelho, amarrado com um laço verde.
- Toma – disse ele, simplesmente – e presta atenção, não o percas no caminho.
A meninazinha saiu, dirigindo-lhe um sorriso radiante. Ele seguiu-a com os olhos, invadido por uma onda de tristeza. Aquela linda criança e seu colar tornavam a mergulhá-lho em seu desgosto habitual. Os cabelos de Joan Grace eram louros como o trigo, seus olhos, azuis como o mar. E, num passado ainda próximo, Peter amara uma moça que tinha os cabelos louros como os dela, e os olhos do mesmo azul. O colar de turquesas cintilantes era para ela.
Mas bastara uma derrapagem de um caminhão numa estrada escorregadia, numa noite chuvosa, para matar aquele belo sonho.
Desde então, Peter Richard vivia solitário, remoendo sua dor. Dava a seus fregueses uma atenção cortês, mas a vida parecia-lhe terrivelmente vazia. Concentrado em si mesmo, acabrunhado pelo desgosto, mergulhava pouco a pouco num desespero cego.
Durante os dez dias que se seguiram à visita de Joan, os negócios andaram bem. Conversando alegremente, os transeuntes entravam, examinavam os objetos, regateavam. Já era tarde, na véspera de Natal, quando o último cliente partiu. Peter Richard suspirou aliviado, ao fechar as gavetas da caixa. Por fim, terminara. Mas enganava-se.
A porta abriu-se e entrou uma mocinha, como um pé-de-vento. Peter sentiu que aquele rosto lhe era conhecido, embora não soubesse dizer onde e quando o tinha visto. Os cabelos da visitante eram de um louro quente, os olhos de um azul profundo. A moça tirou da bolsa um embrulhinho de papel de sêda vermelho. As turquesas brilharam sobre o balcão.
- Esse colar é de sua loja, senhor?
- Sim – respondeu Peter, baixinho. – Com efeito, é daqui senhorita.
- E as pedras são verdadeiras?
- Certamente. Não de primeira qualidade, mas verdadeiras.
- O senhor se lembra a quem o vendeu?
- A uma meninazinha, há uns dez dias. Chama-se Joan. Quer dá-lo de presente de Natal a sua irmã mais velha.
- Quanto vale?
- Não digo nunca o preço que um freguês pagou – respondeu Peter, gravemente.
- Joan nunca tem mais que alguns trocados na bolsa. Como é que ela pôde comprar esse colar?
Mas Peter já estava refazendo o embrulho, dobrando e alisando o papel com cuidado. Tinha acabado de dar o laço na fita e contemplou sua interlocutora com ar sonhador.
- Ela pagou mais caro do que qualquer pessoa – disse ele. – Deu tudo o que possuía.
Um grande silêncio encheu a lojinha de repente. Depois, em algum campanário das vizinhanças, um carrilhão começou a tocar. Uma estranha sensação de renovação invadiu o coração de Peter.
- Mas por que o senhor fez isso?
- Hoje é Natal – respondeu Peter, entregando o embrulhinho à sua visita. – E, para minha infelicidade, não tenho ninguém a quem dar um presente. Permite-me acompanhá-la até em casa e, lá, desejar-lhe um feliz Natal?
E foi assim que, ao som dos sinos, no meio de uma multidão alegre, Peter Richard e uma moça cujo nome ele ainda nem sabia, entraram no dia que enche de esperança o coração dos homens.


Lí este conto natalino, quase pueril, ainda criança, aos dez anos de idade. Fazia parte do Livro da Juventude, uma publicação anual das Seleções do Reader's Digest, na sua edição de 1968.
Apesar da singeleza do texto, a mensagem que o autor tentou passar ficou profundamente marcada desde sempre no meu ser: a de que, independente do valor nominal das coisas, o mais importante é o quanto voce se propõe a se dar para conseguí-lo.
Fico imaginando, às vezes, em que espécie de mundo viveríamos, se as pessoas se permitissem a dar tudo que tivessem, em troca da alegria dos outros.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Adler's advice!

Para um certo amigo meu (mas, amigo mesmo!), precipitadinho todo:



"Na vida cotidiana, um erro de julgamento respeitante a outro ser humano não é necessariamente seguido de perto por trágicas consequencias. Estas podem ocorrer tanto tempo depois do erro, que se torna difícil estabelecer a conexão entre uma coisa e outra. Não raro nos admiramos bastante ao ver quão grandes infortúnios se seguem, decênios depois, à má compreensão que tivemos de um homem. E essas lamentáveis ocorrências é que nos ensinam a necessidade e o dever de adquirirmos, todos nós, um real e operante conhecimento da natureza humana".

Se liga aê, cumpadi!

terça-feira, 30 de novembro de 2010

North-American B-25 Mitchell



Meu pai era tenente especialista da Força Aérea Brasileira, servindo no 1/4º Grupo de Aviação de Caça, sediado, àquela época, em Fortaleza, quando, em 1964, o governo adquiriu para o seu esquadrão, alguns aviões Lockheed T – 33 Shooting Star, monorreatores à jato, utilizados para treinamento.
Teve então, como encarregado da manutenção dessas aeronaves, que ir buscá-las nos EUA e passar alguns meses na fábrica, em Maryland, uma enorme indústria de produtos aeroespaciais, aprendendo os segredos da “criança” e se tornando, com isso, um expert em veículos movidos a reatores.
Este fato foi preponderante para que, quando, no ano seguinte, o Ministério da Aeronáutica criasse a Barreira do Inferno, o primeiro campo de lançamento de foguetes do país, no Rio Grande do Norte, ele fosse chamado a integrar, como técnico, o seu quadro de funcionários.
E por causa disso, fui residir dentro da Base Aérea de Natal, onde morei durante três anos, até que ele passasse à reserva, em 1970.


Apesar de não ser o ponto mais oriental do Brasil, Natal é a capital brasileira mais próxima da África e a rota até Dakar, no Senegal, foi a mais utilizada pelos pioneiros da aviação transatlântica no hemisfério sul, quando a autonomia dos aviões tinha, pelo elevado consumo e a baixa velocidade, várias limitações.
Por esse motivo geográfico, os norte-americanos criaram, durante a II Guerra Mundial, uma enorme estrutura aeroviária para servir de apoio ao que se chamaria depois “Trampolim da Vitória”.


O espaço em que a base está instalada é enorme, em se tratando de um aeródromo. São mais de 1200 hectares de superfície. Mas, o que impressiona mesmo é a quantidade de equipamentos que os ianques ali deixaram.

Pode-se dizer que seja uma pequena cidade, maior até que alguns pequenos municípios do interior do estado. Tem de tudo lá: supermercados, lavanderias, cinemas, igreja, hospital, vilas para oficiais, sargentos, cabos e soldados e seus respectivos cassinos; incontáveis quadras esportivas, pistas de atletismo, campos de futebol, drive-in, clubes, anexos para civis e pessoas em trânsito, oficinas, hangares e um sem número de galpões, muitos abandonados, sem finalidade nos dias atuais.


Morava numa vila com cinqüenta casas, todas de oficiais aviadores, intendentes ou especialistas e possuía muitos amigos da minha idade. Desfrutávamos, as crianças filhas de oficiais, de algumas regalias e acesso quase irrestrito a todas as dependências da base. E tínhamos, através das nossas bicicletas, meio de nos locomovermos livremente naquele mundaréu de vias asfaltadas, fazendo, em grupo, ou mesmo sozinhos, estripulias impensáveis para garotos de outros ambientes.


Assim, descíamos através dos respiradouros dos paióis de bombas, passeando entre artefatos explosivos de mil e quinhentas libras, numa quantidade assustadora, armazenados em casas-matas escondidas no meio do mato, dez ou quinze metros abaixo do solo; ou, nos abaixávamos entre o capinzal existente nas cabeceiras das pistas de pouso, enquanto formações de Aerotec T-23 Uirapurú em treinamento, passavam raspando sobre nossos cabelos para aterrissarem e aí pegávamos nossas bikes e saíamos atrás dos aviões em desabalada carreira; até que a Kombi do CAN, alertada pela torre de controle, viesse nos retirar dali, com integrantes nitidamente aborrecidos pela nossa presença em local não permitido, mas com a cautela verbal que a prudência recomendava quanto aos descendentes dos seus superiores. Adorava peregrinar pelos setores mecânicos e sempre íamos até os Serviços Gerais, onde sucatas de aeronaves viravam nossos brinquedos e onde se encontrava um exemplar de um B-25, naquele tempo com o estado de conservação bastante sofrível.


Ontem retornei, depois de quarenta anos, à Base Aérea de Natal. Fui com meu pai, atualizar seus dados cadastrais, exigência anual do comando aos seus reservistas. Ele aproveitou que se encontrava na capital potiguar, para fazê-lo pessoalmente e quando adentrei o velho quartel, próximo ao setor de inativos, não pude deixar de me emocionar com a visão daquele antigo avião, totalmente reformado, lindo, altivo, demonstrando soberbamente toda a sua galhardia.




Transportei-me imediatamente para momentos do passado, quando um garoto magricela corria por dentro daquela fuselagem, imaginando-se um ás da pilotagem, instalado na carlinga de comando, manche às mãos, controle absoluto. O verdadeiro rei da nacele; ou então, fazendo-se artilheiro, disparando impiedosamente suas metralhadoras Brownings nos bojos de cauda ou de nariz contra os caças Stukas ou Messerschmitts alemães, abatidos magistralmente com uma precisão invejável.


Adoro máquinas, mas particularmente, amo aviões, os mais maravilhosos brinquedos já inventados pelo homem. Cresci ao lado deles, sentindo o cheiro do querosene crispar minhas narinas, escutando seus motores roncar até tremer minha medula, vibrando com rasantes e acrobacias espetaculares, escutando conversas de caserna entre pilotos sobre seus feitos heroicos. Acho alguns modelos primorosos, clássicos, magníficos. Porém os Mitchells, com sua cauda de duplo leme e sua porta na barriga, são para mim uma obra de arte.
E tudo por causa do 5133, o meu avião, companheiro de tantas missões, num tempo em que a imaginação é que alçava os ares, somente para me fazer feliz!



Este aeroplano foi utilizado pelo 5º GAv de 1947 a 1957, na formação de pilotos de bombardeio, tendo voado mais de 50.800 horas em Natal.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Por via das dúvidas...


O silêncio predominante pode ser bruscamente interrompido pelo adentrar em tropel da turba numa extravagante algazarra.
Do considerável e incessante calor do fogão, em cassoulets ou cozidões estupendos, corro às janelas, oitavo andar, onde uivantes alísios apaziguam meu suor; e o contemplar do pélago salgado acalma minha alma, ou a de quem se propuser admirá-lo.
Nos isolados aposentos repousa-se em reconfortantes quietudes, enquanto o rock’n roll, em decibéis incontroláveis, transforma a sala em dancing.

A casa dos contrastes, onde opostos se coadunam.

Perfeitamente natural que se encontre sobre uma prateleira qualquer, produtos com indicações antagônicas, lado a lado.
Para situações inusitadas, claro! Lá, o que se sucederá é uma incógnita constante...

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Equinócio Austral

Amanhã de manhã já será primavera e isto para mim se reveste de uma enorme significância.
Difícil quem possa descrevê-la com tanta precisão e sensibilidade.





Primavera

Cecília Meireles

A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.


Texto extraído do livro "Cecília Meireles - Obra em Prosa - Volume 1", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1998, pág. 366.