quarta-feira, 31 de julho de 2013

OH, PEDAÇO DE MIM!




Quando eras ainda pequerrucha e por vezes, doentinha e os teus estados febris inspiravam cuidados, aproximava-me de ti, aflito: os teus choros sempre foram as minhas piores músicas! Impotente, agarrava-te e encostando-me à tua pele, à tua cabeça, orava silenciosamente, rogando a tua cura, suplicando para que as tuas mazelas, as tuas dores, fossem a mim transferidas, em tentativas desesperadas de te proteger de qualquer mal.
Passados todos esses anos, vejo-te, no auge destas minhas estranhas dores sobre macas hospitalares e deste medo incontrolável de me ver submetido a inadiáveis intervenções cirúrgicas, acalentando docemente o meu espírito, afagando meus cabelos, encorajando-me com palavras tão precisas e realísticas.
Débil, naquele momento, eu realmente precisava daquele sopro, daquele incentivo, daquele alento. O incrível não foi consegui-los de ti: assim eu já o esperava. Mais que tudo, foi descobrir uma fonte de respiração e de força naquele pedaço de mim; foi a sensação de, por algum momento da minha vida, ter conseguido trilhar o caminho certo.

Meu abdómen ainda dói; e deve doer ainda alguns dias. Meu coração, não! Este apenas regozija-se à minha alma, de júbilo, por ter-te!

quinta-feira, 26 de julho de 2012

MAIOR TURTLE



    


  É de notório saber que características físicas são transmitidas através do código genético por gerações, subseqüentemente. Mais recentemente, inclusive, especialistas chegaram a afirmar que mesmo os padrões comportamentais individuais sofrem, ou podem sofrer, influências de hereditariedade, que são conduzidas embutidas nos compostos orgânicos responsáveis pela expedição dos modelos sucedidos, os genes.  
     








Entrementes, a moderna psicologia e até os segmentos voltados aos estudos da espiritualidade são unânimes em afirmar que a alma humana é única e singular e tal como uma cédula de identidade, pessoal e intransferível.

     


 Analisando estas duas assertivas de antagonismo tão acentuado e observando o cotidiano de vida da minha companheira ao longo desses tantos anos, sou levado a considerar a veracidade de ambas.








    Assim como alguns de seus irmãos, Ana Lúcia herdou o espírito bonachão de seu pai. Uma essência básica que mistura simplicidade, ingenuidade e paciência. Reconheceria a paternidade deles todos, sobretudo dela, apenas pelo andar, comedido e balanceado; extremamente fiel ao original.



 Possuidora de gestos largos, como que meticulosamente estudados, ritmados até, tudo nela exprime brandura e retrata fielmente o seu espírito tranqüilo, inclusive na fala... mansa, suave, delicada.
     






  


  Não se deve confundir, todavia, quietude ou serenidade com acomodação. Ágil no agir ou no pensar quando lhe é conveniente, sempre consciente das necessidades que suas atribulações requerem e suas imediatas providências, ainda assim, lhe é quase impossível não deixar transparecer sua marca mais particular, indelével: sua leveza inconfundível.

     

  Por tudo isto, uma amiga super querida apelidou-a, numa alusão ao seu contido vagar, de tartaruga. Mas não uma tartaruga qualquer, senão a mais representativa delas: Tartaruga Mor. A “major” dos quelônios, animais de longa existência. E de similar aparente complacência.
  




  


  Evidente que o seu sossego não lhe permitiria se incomodar com a alcunha, antes pelo contrário. Pareceu-lhe carinhoso e foi adotado intimamente, desde então.

      



  Hoje temos em casa uma singela coleção desses adoráveis bichinhos, amealhados no decorrer do tempo em viagens, comprados como souvenir ou presenteados pelos mais queridos.
   



   






   
  Normalmente o vexame não lhe afeta e parece lhe ser indiferente à maioria das suas ocasiões. A celeridade, essa sim, não aparenta ser muito sua amiga. Afinal, todos sabem que a pressa é inimiga da perfeição. 

      




  Feliz aniversário, minha aquarela deslumbrante. Que tudo de bom continue acontecendo na tua vida!












Fotos by CLARA CASTELO BRANCO MOTTA

sábado, 31 de março de 2012

VALEU, MALUCO!


              Evidentemente que não conseguiríamos escapar incólumes, para todo o sempre, aos indeterminismos que o destino imputa aos seres viventes. A máxima da dádiva da vida prevalecerá, indefectivelmente, sobre a temporalidade humana: tudo que na face do planeta habita e vive, tem início, meio e fim.
     Vivenciamos, por um intervalo de tempo de uns tantos anos, uma era de ouro. Bela e feliz! Éramos maduros o suficiente para distinguir a quem nossos corações poderiam pertencer e tínhamos a sensibilidade necessária para perceber a bilateralidade que nossos sentimentos provocavam; e as simbioses quase perfeitas que daí se originavam.
     Imaginávamos, do alto das nossas ingenuidades, uma irrealidade de alegria perene e, despreocupadamente, aproveitávamos para dar vazão às nossas amizades sinceras, tão descompromissadas e genuínas, quanto alvissareiras e, sobretudo, sobranceiras.
     No fundo sabíamos que um dia, inexoravelmente, o cristal se partiria. Apenas não poderíamos supor que  fosse tão dolorido e que provocasse um vácuo tão acentuado nas nossas existências.
     Incapazes que compreendermos o real significado dos acontecimentos, ficamos a nos perguntar a razão deles. Quem determina quando, onde, como e por quê? Não há respostas plausíveis e nada do que se diga mudará a cruenta situação.  Ainda que a morte seja inerente ao processo da vida, a irreversibilidade dela nos faz imergir num universo onde o supra-realismo impera. Surpreendidos pela avalanche da eventualidade, atingimos um elevado grau de entorpecimento e tudo que conseguimos identificar dentro de nós é a saudade.
     E é em nome desta saudade que me dirijo a ti, meu maravilhoso, equânime e magnânimo amigo, como se ainda tivessem os teus ouvidos, o dom de me escutar. Como se ainda pudéssemos sonhar os mesmos sonhos. Como se nossos planos ainda lograssem se realizar. Como se esta tua tão prematura partida não conseguisse modificar o que sempre nos foi caro e comum.
     Elogiar-te é chover no molhado. Todos que contigo conviveram conhecem teus inúmeros predicados. És uma boa alma e isto é, definitivamente, imperecível. Fica o teu exemplo e através dele conseguistes te transformar no teu próprio legado. O que guardo de ti é aquilo que sempre fostes: um grande companheiro, sobremaneira, como raríssimos conseguem ser. Tenho um imenso orgulho de ter tido a oportunidade de usufruir do teu carinho. Dizem que os verdadeiros amigos contam-se nos dedos de uma só mão; pura verdade, vez que eles são poucos, necessários, essenciais.Agora sem um deles, não mais poderei viver sem me sentir como se tivessem amputado uma parte de mim.
     Os cantos da Redonda continuarão a ecoar pelos espaços opacos do tempo. O vento leste marinho permanecerá com suas rajadas frias, sobre o ambiente que tanto amavas.  A despeito da enorme tristeza que ora nos aflige, a vida continua. É a suprema lei natural a nos mostrar o quanto ela pode se revelar incognoscível.
     Como você mesmo diria:
     Foi sensacional, doido!
     Valeu, cara!
     Valeu, maluco!

domingo, 1 de janeiro de 2012

LEMBRETE



Durante certo tempo, nos idos da década de setenta, o programa Fantástico, O Show da Vida encerrava suas apresentações dominicais com um quadro do genial Chico Anísio, que transvertido em um dos seus personagens, passava uma mensagem semanal para a reflexão do grande público e que, inopinadamente, nada possuía de comicidade.
     O personagem era um profeta, a que os outros figurantes chamavam de “mestre” e tinha a aparência de um patriarca bíblico – um hollywoodiano Charlton Heston pós-moderno, uma espécie de Moisés tupiniquim – com aquela aparência grave e respeitável que convém às figuras proclamadoras das pretensas verdades e que o maior ator brasileiro de todos os tempos encarnava com maestria absoluta.
     Em um desses esquetes, duas pessoas indagavam ao grande sábio resposta às suas apreensões, idênticas, mas originadas por situações antagônicas.
     A primeira buscava saber: “- Mestre, obrigatoriamente irei me transferir de cidade e gostaria de saber se essa alteração na minha vida será boa para mim!”.  O ancião questionava: “- Como é sua vida agora?”. A pronta resposta de que sua condição era estável, com bom convívio no trabalho e nos seus relacionamentos, que se sentia feliz e que a modificação da própria realidade se devia a compromissos profissionais, dava margem à réplica sucinta do prudente homem: “– Vá com confiança, você se dará bem em qualquer lugar!”.
     A segunda criatura, atormentada pela mesmíssima controvérsia a respeito de uma transformação tão radical, tornava claro que seu anseio por nova moradia devia-se exclusivamente à crítica situação que vivenciava, com dificuldades de toda ordem, financeira, familiar e de autoconfiança e que tinha esperança que em um novo canto se processaria as modificações tão desejadas e necessárias. A enfática sentença do guru era por demais irrefutável para não ser levada em consideração: “- Continue onde está, procure antes regularizar sua condição e encontrar a paz aqui mesmo!”
     Definitivamente, a felicidade e bem-estar não são questões geográficas.

Não importa o que acontece. O que verdadeiramente tem relevância é a tua opinião sobre o que acontece!

     Neste final de ano e início de um novo ciclo, tenho acompanhado os comentários dos meus amigos nas redes sociais quanto às expectativas promissoras que as esperanças, sempre renovadas, fazem florescer dentro dos nossos espíritos. E também sobre os malogros e reveses que o destino, rotineiramente, imputa a todos, indistintamente e em todos os aspectos, ao longo de qualquer intervalo.
     Desejos de bonança e prosperidade, efusivos e em quantidades condizentes com a estação, se misturam a impropérios e protestos por situações pouco propícias vivenciadas e creditadas ao acaso, como se um ou outro tivessem relação direta com a mudança do calendário.
     Assim, vejo um “Tudo diferente em 2012!!! Só rindo de mim mesmo e muito...” se misturar a um “Feliz Ano Novo queridos amigos... amo vcs.............. curtindo Canoa Quebrada tudo de bom”. Um “FELIZ FUTURO NOVO A TODOS...” ou “UM 2012 DUCA PARA TODOS NÓS!!!!” publicado ao mesmo tempo de um “Tchau... 2011 leve junto todas vibrações negativas” ou um “Os últimos momentos de um ano bosta tinham que ser de frente para o mar ... rsrs”, apenas evidenciam as diferentes situações que diferentes criaturas experimentaram. Foi bom ou ótimo para alguns. Para outros nem tanto. É natural. Sempre foi assim e vai continuar sendo.
     Não pude deixar de me comprazer com os mais chegados que experimentam agora doces sensações, e as exponenciam; tampouco de me preocupar com os que tentam, com suas inflamações, lembrar que o pessimismo também habita o mundo. Entretanto, quando li minha filha postar “Comendo um churrasquinho gaúcho delicioso feito pelo love Dalmo Gomes. Acaba nãaaao 2011”, me ocorreu que a felicidade existe e tem de ser disseminada. Sofrer é tolice. Deliberadamente, chega a ser irracional.
     A vida foi feita para ser vivida e saber fazê-lo é uma arte.
     Vamos viver enquanto podemos.

sábado, 17 de dezembro de 2011

REALLY?

Do pensamento do JC, o óbvio ululante mais romantizado do planeta e meu personal gurú, às margens do Lago dos Caramujos.







Do ambiente hostil
O pássaro pode sair voando.
A árvore, em ambiente acolhedor,
Pode ficar integrada.
Já a gente
Quer sair do lugar nem que seja para se mostrar.
Como aqui confesso. Saindo da rede.

                 (Júlio César Montenegro Bastos)

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

DIANTE DE MIM

DIANTE DE MIM,
TENDO EU MESMO POR TESTEMUNHA
E SOB PENA DE PERDER O RESPEITO POR MINHA PRÓPRIA PALAVRA,
EU ME COMPROMETO A BUSCAR E DEFENDER QUALIDADE DE VIDA
EM TUDO QUE EU FAÇO E EM TODOS OS LUGARES ONDE EU ESTIVER.
E ME COMPROMETO A ESTAR PRESENTE AQUI E AGORA
A DESPEITO DO PRAZER OU DA DOR QUE ESTE MOMENTO ME TRAZ
FAZENDO A PARTE QUE ME CABE
DO MELHOR MODO QUE EU SEI,
SEM ME QUEIXAR DO MUNDO, NEM CULPAR OS OUTROS
POR MEUS ERROS E FRACASSOS,
MAS ANTES ME ACEITANDO IMPERFEITO, LIMITADO E HUMANO.
E MESMO QUE TUDO RECOMENDE O CONTRÁRIO,
EU ME COMPROMETO A AMAR, CONFIAR E TER ESPERANÇA
SEM QUAISQUER LIMITES OU CONDIÇÕES.
E, EMBORA EU SÓ POSSA FAZER PEQUENO,
EU ME COMPROMETO A PENSAR GRANDE
E A PREPARAR-ME COM DISCIPLINA E CORAGEM
PARA OS IDEAIS QUE AINDA ESPERO E VOU ALCANÇAR,
SABENDO QUE TUDO COMEÇA SIMPLES E SINGELO.
DE CORPO, CABEÇA E CORAÇÃO,
EU ME COMPROMETO CRESCER MUITO E SEMPRE,
DE TODOS OS MODOS POSSÍVEIS,
DE TODOS OS JEITOS SONHADOS.

(GERALDO EUSTÁQUIO)

domingo, 20 de novembro de 2011

PRETO NO BRANCO

     
     Eu havia recém completado onze anos, quando os americanos, em 20 de julho, pisaram pela primeira vez na Lua, naquela que foi considerada a maior aventura do homem. O ano era 1969 e menos de um mês depois acontecia Woodstock, o famoso festival que exponenciou a contracultura e popularizou o movimento hippie e a sua máxima de “paz e amor”, refrão daquela geração e das proximamente subseqüentes.
     Os tempos eram de mudanças drásticas e repentinas. Em outubro daquele semestre, Médici, o chefe do SNI à época do AI-5, tomava posse como presidente do Brasil, para realizar o governo mais repressivo e obscuro da história do país. E em novembro, Pelé marcava seu milésimo gol, bradando, durante a comemoração e em tom de alerta, a necessidade de se direcionar cuidados à infância abandonada da nação; profecia não ponderada pelas autoridades e de conseqüências nefastas tão conhecidas por nós.
     E em dezembro, como de costume, eu desembarcava no casarão dos meus avôs, para mais uma das inesquecíveis férias da série “ser feliz é tudo que se quer”.
     O sobrado dos velhos ficava no centro de Fortaleza, era estreito e comprido, com ambientes espaçosos, um quintal de muitas plantas, que se integrava prazerosamente com a parte aberta posterior do imóvel e, nos altos, voltado para a rua, um quarto enorme com sacada, local onde invariavelmente me instalava em redes embaladas por sonhos e anseios primaveris; e também por resenhas musicais, sociais ou esportivas irradiadas pelo principal meio de comunicação de uma era ainda existente, o rádio.
     Na noite da sexta-feira que antecedeu o Natal, confortavelmente estendido na minha “philomeno”, balançando-me ao ranger dos armadores, acompanhava atentamente no meu aparelhinho de pilhas, uma das partidas finais do campeonato norte-nordeste de futebol, disputado entre as equipes do Ceará, campeão da região nordeste - e pela qual já nutria uma inexplicável empatia - e a do Remo, clube do Pará e campeão da região norte.
     O escrete alencarino havia sido batido no primeiro jogo da série, em Belém, pelo placar de 2x1 e se via na obrigação de devolver o resultado e forçar uma terceira contenda. Caso contrário, veria o Leão Azul levantar a taça mais cobiçada do futebol fora do eixo SP/RJ, as potências do esporte daquele tempo.
     Foram momentos tensos. O time do Ceará perdia de 2x0 até a metade do segundo tempo, mas o destino iria modificar, com uma pilheriedade incomum, a história do clube e, porque não dizer, a minha também.    
      Não sei se por falta de artifícios visuais, mas a impressão que eu tenho é que os narradores de antigamente traduziam mais facilmente em palavras o que presenciavam, reportando com mais vivacidade o que os seus olhos viam. O fato é que fui completamente absorvido pelo magistral “crooner” e transportado, pelo esfuziante entusiasmo do radialista, para dentro da cancha desportiva.
     Parte da torcida já abandonava o estádio quando, aos 22 minutos Magela descontou, reacendendo a chama e a esperança do que já parecia perdido. Mais dez minutos, Zezinho empatou a partida e colocou fogo no velho PV.  E no finalzinho, aos 43, Gildo, o maior goleador da trajetória do “Vovô” em todos os tempos, numa cabeçada certeira, tornou realidade o que apenas vinte minutos antes parecia impossível. A primeira virada a gente nunca esquece!
     Já existia profissionalismo no futebol cearense de então, mas havia também muito amor às agremiações e isso era notório, evidente. Gildo comemorou tanto o seu improvável feito que desmaiou em campo de tanta emoção. A mesmíssima emoção que o tresloucado locutor transmitiu e que fez com que eu não conseguisse dormir por algumas horas.
     Iria acontecer uma decisiva peleja. E eu não poderia deixar de estar lá e testemunhá-la.
    Assim, no domingo seguinte à tarde, saí de casa decidido – bons tempos aqueles em que garotos não corriam perigo em deslocamentos urbanos solitários – e caminhei ansiosamente pela longa Senador Pompeu até a Gentilândia.  Adentrei a praça esportiva embasbacado: era tudo muito grande, ou eu era muito pequeno... ou os dois. Arquibancadas apinhadas de torcedores, um burburinho inquietante, a apreensão pela batalha. O show estava para começar.
     Mesmo vivenciando uma situação inusitada e no meio daquela algazarra toda, me senti tranqüilo. Ainda não existia nos estádios espaços delimitadores para facções distintas, nem torcidas uniformizadas ou organizadas. O espaço era democrático, camisas azuis e alvinegras dividiam os lugares harmoniosamente. Lembro-me de ter visto, inacreditavelmente aos dias atuais, várias bandeiras adversárias atadas com nós nas extremidades, em gestos elegantes de aceitação e amizade, já perdidos no tempo, lamentavelmente. Haveria uma rixa ali, mas ela se restringiria às linhas demarcatórias do gramado.
     E foi o que aconteceu. Eu já gostava de futebol desde sempre e não desperdiçava uma única oportunidade sequer de praticá-lo, mas nunca antes tivera a oportunidade de admirar toda a plasticidade do maravilhoso esporte de maneira tão patente. Encostado ao alambrado, sentidos aflorados, pude ouvir o som seco da bola sendo atingida com violência, perceber o esforço dos jogadores, bufando vigorosamente pela disputa da pelota; escutar a troca de palavreado, numa modalidade também exercida com o gogó, e suas subjetividades decorrentes, como a catimba e a malandragem, existentes e manifestas ao contato auditivo.
     Para um batismo, o resultado não poderia ser mais gratificante. Com gols de Gildo, Magela e Gojoba, o Ceará marcou 3x0 e se tornou campeão do Norte e Nordeste do Brasil de 1969. E eu me tornei, inexorável e irremediavelmente, torcedor do mais querido.
     Ao trinar derradeiro do árbitro Romualdo Arpi Filho, as demonstrações de alegria incontida, gritos, muito choro e extravasada emoção apenas confirmaram o que eu já me apercebera: eu encontrara definitivamente o meu ambiente. E desde então, amo este time como uma extensão de mim mesmo.