sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

O colar de pérolas azuis




Fulton Oursler


No dia em que a pequenina Joan Grace abriu a porta de sua loja, Peter Richard era realmente o homem mais solitário da cidade.
Ele tinha herdado de seu avô uma loja de antiguidades. Na vitrina minúscula, apinhavam-se os objetos mais heterogêneos: pulseiras, medalhões do século passado, anéis de ouro, caixinhas de prata, jades e marfins esculpidos, figurinhas de porcelana.
Naquela tarde, uma meninazinha estava diante da vitrina, a testa apoiada no vidro. Seus olhos enormes estudavam atentamente cada um daqueles tesouros, como se procurassem alguma coisa. Por fim, ela endireitou-se, com um ar satisfeito, e entrou na loja.
O interior estava ainda mais atulhado do que a frente. As prateleiras quase desabavam sob o peso das caixinhas de jóias, pistolas antigas, relógios e lâmpadas, enquanto que sobre o assoalho amontoavam-se velhos cães de chaminé, bandolins e toda espécie de velharia bem difícil de catalogar.
Peter estava atrás do balcão. Embora tivesse pouco mais de trinta anos, seus cabelos já estavam grisalhos. Contemplou a menina com um ar tristonho.
- Meu senhor – disse ela – posso olhar de perto o colar de pérolas azuis que está na vitrina?
Peter afastou a cortina e apanhou o objeto. As turquesas brilharam com vivo esplendor na palma da mão que ele estendeu com indiferença para a jovem freguesa.
- Que lindo! – disse a criança. – Faça o favor de fazer um embrulho bem bonito, sim?
Peter examinou-a com um olhar um tanto frio.
- Alguém mandou você buscar esse colar?
- Não. É para minha irmã mais velha. É ela que me cria. É o primeiro Natal que passamos juntas, depois que mamãe morreu. Quero dar-lhe um bonito presente.
- Quanto é que você tem? – perguntou Peter, sem procurar esconder sua desconfiança.
A meninazinha desatou o lenço e derramou sobre o balcão um punhado de moedas.
- Quebrei meu cofre – explicou ela, com simplicidade, e ficou esperando tranquilamente.
Peter Richard fitou-a com ar pensativo. Depois, prudentemente, pegou novamente o colar. A menina não podia ter lido a etiqueta pequena. Como dizer-lhe a verdade? O olhar azul, tão confiante, despertou subitamente nele a dor de uma ferida sempre viva.
- Espere um pouquinho! – disse ele, dando-lhe as costas.
Depois, por cima do ombro, perguntou-lhe amavelmente, absorvendo-se num trabalho aparentemente minucioso:
- Como se chama, filhinha?
- Joan Grace.
Quando Peter virou-se, tinha na mão um embrulho de papel de sêda vermelho, amarrado com um laço verde.
- Toma – disse ele, simplesmente – e presta atenção, não o percas no caminho.
A meninazinha saiu, dirigindo-lhe um sorriso radiante. Ele seguiu-a com os olhos, invadido por uma onda de tristeza. Aquela linda criança e seu colar tornavam a mergulhá-lho em seu desgosto habitual. Os cabelos de Joan Grace eram louros como o trigo, seus olhos, azuis como o mar. E, num passado ainda próximo, Peter amara uma moça que tinha os cabelos louros como os dela, e os olhos do mesmo azul. O colar de turquesas cintilantes era para ela.
Mas bastara uma derrapagem de um caminhão numa estrada escorregadia, numa noite chuvosa, para matar aquele belo sonho.
Desde então, Peter Richard vivia solitário, remoendo sua dor. Dava a seus fregueses uma atenção cortês, mas a vida parecia-lhe terrivelmente vazia. Concentrado em si mesmo, acabrunhado pelo desgosto, mergulhava pouco a pouco num desespero cego.
Durante os dez dias que se seguiram à visita de Joan, os negócios andaram bem. Conversando alegremente, os transeuntes entravam, examinavam os objetos, regateavam. Já era tarde, na véspera de Natal, quando o último cliente partiu. Peter Richard suspirou aliviado, ao fechar as gavetas da caixa. Por fim, terminara. Mas enganava-se.
A porta abriu-se e entrou uma mocinha, como um pé-de-vento. Peter sentiu que aquele rosto lhe era conhecido, embora não soubesse dizer onde e quando o tinha visto. Os cabelos da visitante eram de um louro quente, os olhos de um azul profundo. A moça tirou da bolsa um embrulhinho de papel de sêda vermelho. As turquesas brilharam sobre o balcão.
- Esse colar é de sua loja, senhor?
- Sim – respondeu Peter, baixinho. – Com efeito, é daqui senhorita.
- E as pedras são verdadeiras?
- Certamente. Não de primeira qualidade, mas verdadeiras.
- O senhor se lembra a quem o vendeu?
- A uma meninazinha, há uns dez dias. Chama-se Joan. Quer dá-lo de presente de Natal a sua irmã mais velha.
- Quanto vale?
- Não digo nunca o preço que um freguês pagou – respondeu Peter, gravemente.
- Joan nunca tem mais que alguns trocados na bolsa. Como é que ela pôde comprar esse colar?
Mas Peter já estava refazendo o embrulho, dobrando e alisando o papel com cuidado. Tinha acabado de dar o laço na fita e contemplou sua interlocutora com ar sonhador.
- Ela pagou mais caro do que qualquer pessoa – disse ele. – Deu tudo o que possuía.
Um grande silêncio encheu a lojinha de repente. Depois, em algum campanário das vizinhanças, um carrilhão começou a tocar. Uma estranha sensação de renovação invadiu o coração de Peter.
- Mas por que o senhor fez isso?
- Hoje é Natal – respondeu Peter, entregando o embrulhinho à sua visita. – E, para minha infelicidade, não tenho ninguém a quem dar um presente. Permite-me acompanhá-la até em casa e, lá, desejar-lhe um feliz Natal?
E foi assim que, ao som dos sinos, no meio de uma multidão alegre, Peter Richard e uma moça cujo nome ele ainda nem sabia, entraram no dia que enche de esperança o coração dos homens.


Lí este conto natalino, quase pueril, ainda criança, aos dez anos de idade. Fazia parte do Livro da Juventude, uma publicação anual das Seleções do Reader's Digest, na sua edição de 1968.
Apesar da singeleza do texto, a mensagem que o autor tentou passar ficou profundamente marcada desde sempre no meu ser: a de que, independente do valor nominal das coisas, o mais importante é o quanto voce se propõe a se dar para conseguí-lo.
Fico imaginando, às vezes, em que espécie de mundo viveríamos, se as pessoas se permitissem a dar tudo que tivessem, em troca da alegria dos outros.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Adler's advice!

Para um certo amigo meu (mas, amigo mesmo!), precipitadinho todo:



"Na vida cotidiana, um erro de julgamento respeitante a outro ser humano não é necessariamente seguido de perto por trágicas consequencias. Estas podem ocorrer tanto tempo depois do erro, que se torna difícil estabelecer a conexão entre uma coisa e outra. Não raro nos admiramos bastante ao ver quão grandes infortúnios se seguem, decênios depois, à má compreensão que tivemos de um homem. E essas lamentáveis ocorrências é que nos ensinam a necessidade e o dever de adquirirmos, todos nós, um real e operante conhecimento da natureza humana".

Se liga aê, cumpadi!

terça-feira, 30 de novembro de 2010

North-American B-25 Mitchell



Meu pai era tenente especialista da Força Aérea Brasileira, servindo no 1/4º Grupo de Aviação de Caça, sediado, àquela época, em Fortaleza, quando, em 1964, o governo adquiriu para o seu esquadrão, alguns aviões Lockheed T – 33 Shooting Star, monorreatores à jato, utilizados para treinamento.
Teve então, como encarregado da manutenção dessas aeronaves, que ir buscá-las nos EUA e passar alguns meses na fábrica, em Maryland, uma enorme indústria de produtos aeroespaciais, aprendendo os segredos da “criança” e se tornando, com isso, um expert em veículos movidos a reatores.
Este fato foi preponderante para que, quando, no ano seguinte, o Ministério da Aeronáutica criasse a Barreira do Inferno, o primeiro campo de lançamento de foguetes do país, no Rio Grande do Norte, ele fosse chamado a integrar, como técnico, o seu quadro de funcionários.
E por causa disso, fui residir dentro da Base Aérea de Natal, onde morei durante três anos, até que ele passasse à reserva, em 1970.


Apesar de não ser o ponto mais oriental do Brasil, Natal é a capital brasileira mais próxima da África e a rota até Dakar, no Senegal, foi a mais utilizada pelos pioneiros da aviação transatlântica no hemisfério sul, quando a autonomia dos aviões tinha, pelo elevado consumo e a baixa velocidade, várias limitações.
Por esse motivo geográfico, os norte-americanos criaram, durante a II Guerra Mundial, uma enorme estrutura aeroviária para servir de apoio ao que se chamaria depois “Trampolim da Vitória”.


O espaço em que a base está instalada é enorme, em se tratando de um aeródromo. São mais de 1200 hectares de superfície. Mas, o que impressiona mesmo é a quantidade de equipamentos que os ianques ali deixaram.

Pode-se dizer que seja uma pequena cidade, maior até que alguns pequenos municípios do interior do estado. Tem de tudo lá: supermercados, lavanderias, cinemas, igreja, hospital, vilas para oficiais, sargentos, cabos e soldados e seus respectivos cassinos; incontáveis quadras esportivas, pistas de atletismo, campos de futebol, drive-in, clubes, anexos para civis e pessoas em trânsito, oficinas, hangares e um sem número de galpões, muitos abandonados, sem finalidade nos dias atuais.


Morava numa vila com cinqüenta casas, todas de oficiais aviadores, intendentes ou especialistas e possuía muitos amigos da minha idade. Desfrutávamos, as crianças filhas de oficiais, de algumas regalias e acesso quase irrestrito a todas as dependências da base. E tínhamos, através das nossas bicicletas, meio de nos locomovermos livremente naquele mundaréu de vias asfaltadas, fazendo, em grupo, ou mesmo sozinhos, estripulias impensáveis para garotos de outros ambientes.


Assim, descíamos através dos respiradouros dos paióis de bombas, passeando entre artefatos explosivos de mil e quinhentas libras, numa quantidade assustadora, armazenados em casas-matas escondidas no meio do mato, dez ou quinze metros abaixo do solo; ou, nos abaixávamos entre o capinzal existente nas cabeceiras das pistas de pouso, enquanto formações de Aerotec T-23 Uirapurú em treinamento, passavam raspando sobre nossos cabelos para aterrissarem e aí pegávamos nossas bikes e saíamos atrás dos aviões em desabalada carreira; até que a Kombi do CAN, alertada pela torre de controle, viesse nos retirar dali, com integrantes nitidamente aborrecidos pela nossa presença em local não permitido, mas com a cautela verbal que a prudência recomendava quanto aos descendentes dos seus superiores. Adorava peregrinar pelos setores mecânicos e sempre íamos até os Serviços Gerais, onde sucatas de aeronaves viravam nossos brinquedos e onde se encontrava um exemplar de um B-25, naquele tempo com o estado de conservação bastante sofrível.


Ontem retornei, depois de quarenta anos, à Base Aérea de Natal. Fui com meu pai, atualizar seus dados cadastrais, exigência anual do comando aos seus reservistas. Ele aproveitou que se encontrava na capital potiguar, para fazê-lo pessoalmente e quando adentrei o velho quartel, próximo ao setor de inativos, não pude deixar de me emocionar com a visão daquele antigo avião, totalmente reformado, lindo, altivo, demonstrando soberbamente toda a sua galhardia.




Transportei-me imediatamente para momentos do passado, quando um garoto magricela corria por dentro daquela fuselagem, imaginando-se um ás da pilotagem, instalado na carlinga de comando, manche às mãos, controle absoluto. O verdadeiro rei da nacele; ou então, fazendo-se artilheiro, disparando impiedosamente suas metralhadoras Brownings nos bojos de cauda ou de nariz contra os caças Stukas ou Messerschmitts alemães, abatidos magistralmente com uma precisão invejável.


Adoro máquinas, mas particularmente, amo aviões, os mais maravilhosos brinquedos já inventados pelo homem. Cresci ao lado deles, sentindo o cheiro do querosene crispar minhas narinas, escutando seus motores roncar até tremer minha medula, vibrando com rasantes e acrobacias espetaculares, escutando conversas de caserna entre pilotos sobre seus feitos heroicos. Acho alguns modelos primorosos, clássicos, magníficos. Porém os Mitchells, com sua cauda de duplo leme e sua porta na barriga, são para mim uma obra de arte.
E tudo por causa do 5133, o meu avião, companheiro de tantas missões, num tempo em que a imaginação é que alçava os ares, somente para me fazer feliz!



Este aeroplano foi utilizado pelo 5º GAv de 1947 a 1957, na formação de pilotos de bombardeio, tendo voado mais de 50.800 horas em Natal.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Por via das dúvidas...


O silêncio predominante pode ser bruscamente interrompido pelo adentrar em tropel da turba numa extravagante algazarra.
Do considerável e incessante calor do fogão, em cassoulets ou cozidões estupendos, corro às janelas, oitavo andar, onde uivantes alísios apaziguam meu suor; e o contemplar do pélago salgado acalma minha alma, ou a de quem se propuser admirá-lo.
Nos isolados aposentos repousa-se em reconfortantes quietudes, enquanto o rock’n roll, em decibéis incontroláveis, transforma a sala em dancing.

A casa dos contrastes, onde opostos se coadunam.

Perfeitamente natural que se encontre sobre uma prateleira qualquer, produtos com indicações antagônicas, lado a lado.
Para situações inusitadas, claro! Lá, o que se sucederá é uma incógnita constante...

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Equinócio Austral

Amanhã de manhã já será primavera e isto para mim se reveste de uma enorme significância.
Difícil quem possa descrevê-la com tanta precisão e sensibilidade.





Primavera

Cecília Meireles

A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.


Texto extraído do livro "Cecília Meireles - Obra em Prosa - Volume 1", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1998, pág. 366.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Matador de aluguel

O agudo gutural, descomunal, soou com tal intensidade que, num primeiro instante, temi pela segurança dela. Chegou a me arrepiar!
O pensamento inicial foi que ela pudesse ter surpreendido algum estranho que houvesse adentrado o apartamento e, aterrorizada, gritasse de forma tão visceral.
Meu corpo reagiu como uma mola e, tal cavaleiro andante, parti célere contra o horrendo dragão que atormentava minha donzela.
Para o maior alívio que tive o prazer de vivenciar, constatei que o medonho perigo não passava de um... inseto.
Não me refiro aqui aos perigosos artrópodes que habitam as selvas tropicais, como aranhas, escorpiões e afins, capazes de, com suas venenosas picadas, provocar choques anafiláticos ou mesmo mortes por paradas cardiorrespiratórias.
O ser terrível que consegue deflagrar o pavor total na criatura mais valorosa e corajosa que conheço é uma simples Periplaneta Americana, a barata doméstica.
Animal sem modificações morfológicas significativas nos últimos 400 milhões de anos, as blattarias ocupam um dos últimos lugares nas listas de espécimes em extinção e, dizem, numa eventual hecatombe nuclear, dominariam o planeta.
Enquanto isso não acontece, elas se contentam, de quando em vez, de dominar a minha casa, transformando-me em uma espécie de bombeiro de plantão, sempre pronto a agir, full time, ao menor sinal (e que sinal!) de alerta.
Claro que, com todos esses anos de prática e após milhares de ocorrências, desenvolvi técnicas de matança que me qualificariam como o exterminador #1 de neópteros.
O que me transforma no mais requisitado socorredor do bairro, já que minhas filhas, que nasceram sem o pecado original e nem o temor de baratas, pelo mau exemplo da mãe, costumam emitir pedidos de ajuda com a mesma freqüência e igual estridência.
Não encontro explicação para tanto receio por parte dessas minhas mulheres. Entendo a repulsividade que estes seres asquerosos provocam; o perigo para a saúde que elas representam e o quanto é inconveniente conviver com animais indesejáveis que, através dos tempos, tornaram-se cosmopolitas.
Mas o que leva uma pessoa a sair correndo como o diabo corre da cruz, tornando subjacente qualquer outra atividade em curso, no único intuito de escapar de nada?
Deve haver algum ramo da psicologia que possa responder.
Já presenciei minha esposa abandonar a direção do carro em movimento, em avenida tumultuada pela hora do rush, deixando a porta do veículo aberta, enquanto corria no asfalto como uma maluca desvairada no meio do trânsito, somente porque uma “francesinha” passou por cima do seu pé.
Tomara que o nosso plano de saúde cubra assistência psiquiátrica; não tanto para ela(s), senão para mim próprio, que não consigo mais comprar calçados, sem primeiramente analisar os solados sob o prisma da dinâmica assassina, imaginando bicudos rasteiros, esmagamentos impiedosos ou abatimentos aéreos.
Haja eficiência!

Secunda non habent unquam modum

Pouco importa o quanto tua ansiedade consiga lubridiá-lo, elastecendo o passar dos dias, num arrastado interminável.
Tampouco quão suscetível a este efeito possas te tornar, pela expectativa a que teu coração te obriga.
O tempo, qualquer que intervalo utilize, sempre chegará. Verdade insofismável!
E trará com ele a esperança de dias alegres e vida tranqüila.

Ou, traduzindo Sêneca: - A felicidade é incontentável.